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PSICÓLOGO ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO(TERAPIA DE CASAL E INDIVIDUAL)- C.R.P. 31341/5. RUA ENGENHEIRO ANDRADE JÚNIOR 154- TATUAPÉ- SÃO PAULO -SÃO PAULO- TELS: 66921958/ 93883296.

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ANSIEDADE (ASPECTOS POSITIVOS E NEGATIVOS)

 

Discutir a ansiedade em nossa era é uma tarefa extremamente complexa, pois tal fenômeno assim como o stress é tão largamente utilizado, que quase não se sabe a definição de ambos. A ansiedade é um conjunto de aspectos físicos, químicos e psicológicos, produzindo reações perante múltiplos fatores: medo, insatisfação, infelicidade, timidez, desejo, vontade, agonia dentre outros. São sensações reais e irreais de vários processos em que a pessoa deve elaborar um sentido; caso resista a esta tarefa, se desenvolverão os chamados sintomas psicossomáticos, que nada mais são do que mensagens orgânicas para pontos nos quais o sujeito reluta em mudar. A questão central é se apesar de toda a agonia e desespero por algo não alcançado, o sujeito no transcorrer de sua vida foi capaz de desenvolver uma criatividade, elementos psíquicos e comportamentais de evolução pessoal e coletiva, sendo a sentença máxima que aplaca os efeitos da ansiedade negativa. Psicologicamente temos obrigações, e quando não as cumprimos surgem complicações de todo tipo. Ansiedade na sua gênese é sempre um sinal de alerta. Percebam que a mente cria algo extremamente concreto (sintomas), mas, também abstrato do ponto de vista do entendimento exato do fenômeno, mantendo a energia constante sobre determinada enfermidade. Obviamente se chega à conclusão de que todo sofrimento é fruto de determinada tarefa não cumprida.

 

Como a ansiedade é inerente ao ser humano, a mesma só necessita de um estímulo para ser ativada. Seja na infância ou adolescência, tudo começa com algo totalmente “inesperado”, uma rejeição, frustração, embate, que retira por completo a chamada inocência do sujeito, sendo assim, o resultado é o mais puro inconformismo, elemento também central da ansiedade. O resumo disso tudo é um total despreparo quando o assunto é o controle da emoção. Viver uma grande experiência ou ilusão de prazer, para depois perdê-la; apego é companheiro permanente da ansiedade. Se houve a perda do objeto externo, a atenção se concentra toda no interno, advém então o problema dos sintomas psicossomáticos. ALFRED ADLER, primeiro colaborador de FREUD cunhou um termo um tanto estranho para a época, chamado de “inferioridade dos órgãos”; tal fenômeno era quando a criança ficava doente e conseguia obter mais atenção e mimo, forçando o ambiente a lhe prestar todo o cuidado, após isso, desenvolvia uma doença crônica para dar continuidade à atenção recebida, algo que a medicina moderna classificou depois de órgão de choque, mas, que psicologicamente tem o sentido dado por ADLER, assim como remoer e reviver a todo o custo o elo da satisfação perdida num nível inconsciente, trazendo o sintoma como aliado. Mas alguém poderia questionar como a busca de um prazer perdido pode envolver a doença que seria seu oposto? Primeiramente o mimo obtido como dizia ADLER, segundo, a experiência da derrota evoca o medo do sujeito em tentar outras experiências, se agregando apenas aos seus conteúdos internos. O conteúdo mórbido seria uma espécie de distração contra futuras derrotas ou dificuldades pessoais que o sujeito não deseja vivenciar.

 

O contrário, a ansiedade positiva é o olhar sobre diversas possibilidades, afora o que se nomeou no passado como ícone sagrado de um suposto prazer. É a prova máxima da eternidade do recomeço, capacidade e criatividade do indivíduo. Seja aquele “frio na barriga”, ou até um nervosismo, o importante é que tais elementos nos impulsionem para um patamar de esforço pessoal que traga uma evolução global de nossa personalidade. É totalmente um mito a tese do equilíbrio pleno. A evolução do ser humano seja na caça, agricultura ou outro elemento qualquer se deu através de uma boa soma de ansiedade. O núcleo moderno do desejo de estabilidade é extremamente contrário à natureza humana, pois, se fosse pela segurança citada, o homem estaria ainda nas cavernas. A ansiedade é o catalisador mais puro e cristalino para a aferição de como o sujeito irá lidar com sua dificuldade ou momento de pânico. Não preciso nem afirmar que numa cultura onde a competição é o centro, tal ansiedade positiva se transforma no mais puro desespero, devido não apenas à exacerbação da mesma, mas, que a competição retira o centro do indivíduo, esgotando seu potencial e criatividade. Alguns achariam aqui o contrário, que a competição pode inspirar o potencial da pessoa. A prática mostra que é algo extremamente raro, pois a conseqüência direta da competição é o horrendo processo da inveja e perda de tempo perante objetos ou situações irrelevantes para o nosso desenvolvimento psicológico.

 

É mister observar quais as marcas que a ansiedade deixou no decorrer do desenvolvimento psíquico; descontrole emocional, raiva, sensação de abandono ou de ser sempre o último a alcançar alguma satisfação. Quando a não aceitação do fenômeno mina por completo a capacidade da chamada paciência do indivíduo irão se condensar todas as doenças psicossomáticas citadas: fobias ou síndrome do pânico. Esta última, assim como a depressão, para ser bastante sintético, é sinônima da desistência perante qualquer tipo de ameaça. A pessoa literalmente “jogou a toalha” perante seu compromisso de continuar tentando. Mas por que o medo passa a ser mais interessante do que a situação excitante de um possível desafio? ADLER desenvolveu o conceito citado acima da retirada perante uma derrota ou situação de prova, sendo que se prefere a dor, a enfrentar algo que já não temos tanta confiança que pode dar certo. Apenas acrescento a tal tese o infortúnio também da comparação, a possibilidade do escárnio dos outros, o desprazer absoluto de ter de lidar com a inveja, sendo esta um dos terrenos mais férteis para o pleno desenvolvimento da ansiedade, que nada mais é do que uma rotina hegemônica que visa encobrir aquilo que ainda não se obteve, mas, que também não temos a mínima certeza de que caso conquistássemos suposto sonho ou evento seríamos mais felizes ou satisfeitos.  

 

Podemos estabelecer agora a equação máxima para a ansiedade: desejo experimentado ou imaginado versus possibilidade de efetivação ou de durabilidade igual ao tempo para se obter tais metas. A ansiedade fere demasiadamente o narcisismo do indivíduo, pois cedo se descobre que o encadeamento dos acontecimentos não segue a trilha imaginada de nossa vontade pessoal. O sucesso tão almejado em nossa cultura seria então um fenômeno extremamente elitista, e que não segue nenhuma seqüência de lógica linear de esforço pessoal, como quase todos imaginam, mas, sua consecução segue um traçado de tranqüilidade quase que inatingível para a maior parte das pessoas. Particularmente não tenho a menor dúvida de que determinado sonho ou desejo desde que não seja megalomaníaco tende a concretizar em determinada hora; o que talvez poucos percebam é se tal processo foi válido ou simplesmente retirou a coisa que menos temos, o tempo. Há ainda o consumismo em nossa era que se tornou um fator incrível de abrandamento da ansiedade, destituindo o indivíduo da percepção profunda de seus verdadeiros sentimentos ou sensações. Comprar não é apenas sinônimo de ser aceito, mas, principalmente obter uma válvula de escape perante uma verdade que nos angústia o tempo todo.

 

Há uma correlação bem estreita entre ansiedade e a questão do poder. O sujeito acometido da primeira sente sempre a ameaça de ser tolhido, ou que seu espaço é ínfimo. Desenvolve-se então a necessidade de controle e poder sobre outro ser humano. O medo do abandono é assustador, esta é a mais pura gênese do ciúme, tentar o controle contra o desespero de uma inferioridade que não dá trégua, tentando agir na suposta superioridade da manipulação e poder citados. O poder é benéfico num patamar de ajuste e desenvolvimento administrativo no plano coletivo; no pessoal quando é usado para a ajuda e evolução da pessoa e seu meio circundante; o resto é pura reação de insegurança e desejo de abafar seus fantasmas internos através da distração e adrenalina que a manipulação produz. O controle eficaz da questão da ansiedade passa por uma pergunta e resposta fatídica: qual o desejo ou falta que historicamente esteve mais ausente em nossa vida? Em que ponto começou o remoer da contradição ou inconformismo daquilo que seria mais do que justo para a nossa satisfação ou felicidade? Uma das palavras preferidas pela psicologia é o discernimento da questão da frustração, e quando tal coisa se torna absolutamente intolerável. Percebam que as coisas sempre vão se agregando no pantanoso terreno do sofrimento, e que quase nunca se sabe quais elementos inconscientes se enlaçaram para termos uma certeza mórbida que as dificuldades ou derrotas ao invés de nos conduzirem a algo novo, nos trazem somente angústia.

 

 

Poderíamos perfeitamente entender a ansiedade numa pessoa muito solitária, ou com grande soma de fracasso pessoal ou econômico. Mas o que dizer de alguém que a priori obteve um bom relacionamento ou emprego e ainda sim sofre com a chaga citada? A resposta nos conduz ao ápice deste estudo, e o que ocorre não é apenas um medo ou receio perante a perda, mas, principalmente um mecanismo inconsciente que julga que a pessoa jamais pode ser merecedora de tais conquistas. Antigamente tal aspecto era chamado de “neurose de êxito”, ou o fracasso quando se consegue o triunfo. Aprofundando a questão, logo descobriremos uma imensa dose de culpa internalizada pela pessoa, a orientando para uma espécie de compaixão pelo fracasso e miserabilidade moral e pessoal. O mais incrível nessa questão é a total cegueira ou surdez do indivíduo, que apesar dos clamores das pessoas mais próximas de que é ou possui algo especial, ignora por completo tais apelos, insistindo em sua dor única quase que irreparável. Não se trata do processo do masoquismo como alguns poderiam pensar, pois não há a volição consciente para sofrer; o que ocorre é uma exclusão imposta por um processo estruturado no inconsciente como disse acima, dizendo que apenas uma situação bombástica ou praticamente improvável tiraria o indivíduo de seu caos pessoal. A psicanálise historicamente classificou tal fato ligando as origens familiares do sujeito; embora isto seja verdade, acho que há uma brecha na teoria. O fato é que quando uma pessoa foi vítima de um abuso psíquico, a mesma irá se reservar o direito da contrariedade ou ódio eterno, insistindo que ninguém poderá preencher suas necessidades, então está mais do que liberada ou justificada para vivenciar a plenitude de suas emoções negativas.

 

A ansiedade passa a ser um binômio entre a dívida que a pessoa julga que o outro deve pagar, e seus próprios sentimentos de devedora, pois se não obteve algo desejado é porque lhe faltou alguma característica psicologicamente falando. Nos anos sessenta a medicina finalmente provou as doenças psicossomáticas citadas neste texto, com os famosos experimentos da universidade de CHICAGO com pacientes que sofriam de gastrite nervosa. Confesso que uma das coisas que mais me impressionou no transcorrer de minha formação profissional foi o desenrolar de tal fenômeno para outras características ainda pouco observadas. Além de a ansiedade citada produzir sintomas orgânicos, pude perceber que muitas vezes os mesmos acompanham historicamente o indivíduo não apenas em situações traumáticas, mas, induzem uma espécie de alertas sobre futuras mágoas, perdas ou decepções. Seriam como elementos intrapsíquicos com natureza quase que premonitória, alertando o sujeito para determinada indolência de sua conduta. Outro aspecto é o aviso que o desejo obsessivo do indivíduo é absolutamente irreal e fantasioso. Poderia citar vários casos de pacientes que uma semana, um mês ou até um ano antes de determinada perda contraem determinado sintoma incessante que não consegue traduzi-lo como um futuro preparo para algo doloroso que terá de enfrentar.

 

Um projeto psicológico moderno deve englobar todas as áreas que afetam o indivíduo; assim sendo, seria fundamental que a ansiedade, tristeza ou depressão não fossem sedadas, mas incluídas como reservatórios de conhecimento que o sujeito ainda não atingiu. Qualquer sofrimento sempre é um convite, não uma condenação irreparável. A noção psicanalítica clássica de inconsciente como uma estrutura ou edificação única de desejos ou anseios reprimidos é totalmente incompleta ou até ultrapassada. Na verdade não há nenhum “edifício” único no plano mental, e sim espaços que podem ser preenchidos por vários organismos ou energias psicológicas que vão desde a loucura até a genialidade. A vida como já disse em outra ocasião nada mais é do que uma espécie de aluguel, e a neurose seria uma tentativa de despejo de nossa tranqüilidade, ou até mesmo a invasão completa de nossa propriedade (mente).

 

Na verdade, todos os distúrbios da ansiedade de nossa era (opressão na garganta, gastrite, taquicardia, enxaqueca, excesso de salivação, auto-imolação, tiques nervosos), dizem de como as pessoas se sentem extremamente solitárias, confusas e medrosas. O medo ou receio de novas decepções no plano externo potencializa o interno como observei acima. O grande problema disso tudo é o preconceito das pessoas de revelarem suas falhas ou medos; sendo que essa timidez seria um correlato moderno da moral antiquada que visava à repressão sexual. A essência de ambos os fenômenos é pura e simplesmente abafar todos os conflitos, entrando nesse estágio a medicação como arma para sedar o não resolvido. O fato é que impressiona a absoluta alienação no começo deste novo século. Aquilo que mais se deseja afastar (sofrimento) virou o maior objeto de disputa seja pelas drogas ilícitas ou lícitas, ou pelas religiões, sendo que a psicologia se mantém num papel intermediário, embora devesse ser encarada como autoconhecimento e nunca estudo comportamental, pois do contrário estará impregnada pelo ajustamento e condicionamento.

 

A evolução no estudo do sofrimento ou ansiedade é descobrir como uma determinada dificuldade ou perda tem uma leitura psíquica ou orgânica de cunho irreparável. Isso fatalmente remete a determinado acontecimento passado de inconformismo de ter perdido alguma oportunidade valiosa na esfera afetiva; ansiedade e arrependimento também caminham juntas. Mas porque tínhamos a certeza no passado que determinado investimento daria certo e não o aproveitamos? Coloca-se aqui mais outra equação da ansiedade; pois no passado não havia a contaminação da esfera econômica, estávamos amplamente abertos para a questão amorosa sem divagações ou cobranças e descobrimos que o passar do tempo apenas solidificou nosso esforço para uma segurança econômica que barrou uma possibilidade de felicidade que não cultivamos. O passado não é composto por traumas somente, mas, por avisos sistemáticos que negamos. A grande pergunta neste ponto é como recuperar a ingenuidade perdida com toda a carga de conhecimento negativo ou desesperança que se adquiriu no decorrer dos anos? Uma parte da resposta até é simples; as pessoas no geral não conseguem se desligar do império automático da mágoa e ódio quando se sentem frustradas, embora advoguem o oposto, que não cultivam rancores.

 

A ansiedade não deixa também de ser um processo de escolha para o individuo, pois o mesmo pode atravessá-la com uma sensação plena de aprendizado e enriquecimento interno, ou fica estacionado pura e simplesmente na angústia. Uma coisa fundamental a ser considerada é que aquilo que a pessoa considera que lhe faltou ou que lhe lograram, passando a reclamar o que lhe é devido no decorrer dos anos, pode justamente comprometer por completo sua saúde psíquica. A mágoa e rancor são como um ácido sulfúrico num copo de água cristalino que representaria a essência do desejo ou satisfação. Como expliquei em outro estudo, determinadas emoções negativas visam à proteção instintiva da espécie apenas, não devendo ser cultivadas constantemente. A ansiedade negativa se torna uma espécie de anabolizante que cria uma couraça em torno da pessoa, mas tal “massa muscular” blinda de forma destrutiva o indivíduo.

 

 

Mas porque o sujeito não vê que tal mágoa lhe dilacera a possibilidade futura de felicidade? Alguns diriam que tal pessoa neste estágio já estaria amplamente mergulhada na vingança, isto é totalmente verdade, mas, porque também não consegue optar por algum tipo de perdão? Neste ponto temos de avaliar a incompletude de tal conceito pela tradição religiosa. O perdão jamais pode ser apenas em relação a quem, ou o que nos acarretou danos, mas, principalmente deve ser obtido pela própria manutenção do potencial positivo da pessoa, resguardando aquilo que tem ou poderia trocar de forma plena, não permitindo em nenhuma hipótese que fosse contaminado pela amargura e infelicidade alheias. Sabedoria e amor de certa forma é saber preservar, não permitindo a fuga de nossas habilidades ou as provas de nossa autoestima. Quando se cai no império nefasto da comparação ou opinião alheia podemos apostar que nossa vida será uma eterna ciranda de atribulação e ansiedade. Não estou advogando que o isolamento ou solidão sejam o refúgio, mas que há critérios na convivência social, e um deles é não dissolver nossa personalidade porque ficamos com medo ou envergonhados perante observações ou comentários na maioria das vezes proferidos por absoluta má intenção ou ignorância. A crítica é magnífica quando nosso filtro interno sabe selecionar a pureza ou impureza da fala do outro. A manutenção precisa de tal medida é vital para a sobrevivência do ego da pessoa.

 

A ansiedade como estive dizendo é a aferição sobre se nossas reais necessidades estão sendo satisfeitas, ou pelo menos encaminhadas. O drama acontece quando todo este processo é absolutamente inconsciente, e como conseqüência nossa mente se torna uma espécie de hotel ou pousada sem delimitação de tempo para imagens de medo, insegurança, desespero e lembranças de raiva ou ódio. A verdade é que a pessoa custa a perceber seu orgulho na totalidade da palavra, sendo que a gênese do mesmo é a raiva ou intolerância frente às expectativas frustradas perante o comportamento do outro. Muitas vezes a certeza ética de uma conduta ou ideologia não seguida pelo parceiro ou membro da família é fonte de total sofrimento sem que estejamos atentos para tal fato. Pensemos no mito de Édipo, elemento central da psicanálise. Em determinada parte o protagonista é obrigado a decifrar o enigma da esfinge. Como todos sabem a equação era o que engatinhava, depois andava com duas pernas e a seguir com três. A resposta era o processo da vida do ser humano nas diferentes etapas; infância, maturidade e velhice. FREUD enfatizou a imagem e dever do prazer nas diferentes etapas citadas, sendo que a neurose ou ansiedade seriam cargas libidinais paradas em determinadas fases do desenvolvimento. Penso que nos dias atuais o enigma seria bem outro: o que se abafarmos por completo acarreta doenças; mas, se o vivenciarmos intensamente destruirá nossa sensibilidade; ou se perdermos o controle irá nos conduzir à solidão e desespero. A resposta é o ódio citado anteriormente. Nem mesmo nos terríveis tempos das grandes guerras fomos testados ou provados para trabalharmos individual e coletivamente tal processo. O ódio não apenas é um fruto da competição e disputa de poder, mas, principalmente a raiz de uma ansiedade pessoal pela incapacidade de lidarmos com a frustração oriunda de expectativas enganosas que depositamos no meio circundante.

 

O tratamento da ansiedade só deve passar por medicação em estados que levam a depressão severa ou prostração da pessoa. A psicoterapia deve ser iniciada assim que a pessoa detectar o tédio entrando em várias áreas da sua vida, e deve refletir intensamente com o profissional que uma experiência que começa com o total desprazer pode se tornar gratificante pelo simples processo da tentativa, coisa que o depressivo se recusa. Em síntese, a ansiedade ou tédio é a essência em determinado caso de uma personalidade ambiciosa, que deseja apenas fazer uma espécie de turismo em diferentes áreas e processos emocionais, descartando o envolvimento e compromisso. Novamente aqui nos esbarramos com a questão da timidez, sendo que seu núcleo é a preferência para se viver o conflito ao invés do pânico de ser rejeitado. O tímido não deixa de ser um suicida da constância e benefícios que um relacionamento maduro proporcionam. Parece que infelizmente estamos perdendo a tranqüilidade e bem estar para minúsculos detalhes, atos obsessivos ou valores retrógrados. A cada dia o especialista em saúde mental detecta a incompetência para se viver um relacionamento produtivo ou o espírito genuíno de coletividade. Há total escassez de amigos, principalmente nos relacionamentos afetivos, onde se vê uma parceria pífia na sexualidade ou ciúme.

 

O heroísmo econômico e de consumo tão alardeado apenas nos tornaram refugiados quase que absolutos na solidão e mesmice. É imperativo se iniciar uma análise crítica do individualismo. A união grupal da humanidade pela sobrevivência e apoio emocional foi totalmente substituída pela vaidade e narcisismo. Se a aurora da humanidade foi caçar ou se defender em grupo, agora assistimos um único indivíduo recolher para si próprio um maior número possível de armas (simbolizadas pelo dinheiro), sendo que efetivamente jamais podem ser utilizadas pelo mesmo, uma ilusão absoluta de proteção, que gera todo o medo e ansiedade de nossa era.* Pensemos agora na função psicológica do sofrimento. O senso comum apregoa que o mesmo é um sentimento indesejado, incômodo, que provoca apenas dor. Observando a realidade psicológica dos indivíduos em nossa sociedade não é bem isso que se constata. O sofrimento é uma mercadoria de alto valor, dezenas, por que não dizer centenas de instituições filantrópicas e sociais são organizadas pelas diferentes mazelas que afligem o ser humano. Fazer parte de tais instituições é um excelente mecanismo para que a maioria dos indivíduos que as compõe ocultem seus próprios problemas ou miserabilidade pessoal. Inspira um sentimento de superioridade e altruísmo que traz mais benefícios aos filantropos do que aos assistidos. Defendo que em breve irão faltar pobres para esse enorme contingente de organismos assistenciais.

 

O sofrimento oferece um sentido à vida. A pessoa absorta no mesmo não necessita enfrentar suas contradições, seus conflitos, suas imperfeições, apenas sofre. Torna-se objeto de comiseração daqueles que com o sofredor convivem, uma situação deveras privilegiada e narcisista, fazendo com que o sujeito vire o centro da atenção, o deprimido que o diga. Sofre-se pela manhã, tarde e noite. Desafios e medos são procrastinados. Por tudo isso é um dos sentimentos mais caros, sendo que neste patamar o sofredor não tem mais responsabilidade, assim sendo o sofrimento aberto ou velado é novamente outro estandarte do tímido.*

Na verdade a tese acima do doutor IRINEU FRANCISCO, nada mais é do que uma descrição extremamente avançada do processo da resistência à psicoterapia. A pessoa não abre mão do sofrimento por o considerar uma posse, “algo incrivelmente negativo aconteceu comigo, e não vou deixar ninguém tirar a experiência ou lembrança que carrego com tanto apreço pelo decorrer do tempo, preciso cuidar e zelar pela minha dor”. Este é o tipo de pessoa que vai ao consultório dizendo que o simples fato de sentar frente ao terapeuta já é um grande passo, quando na verdade deseja preservar seu núcleo neurótico.

 

Outra questão que merece um comentário pormenorizado é o resultado prático de nosso esforço, já que em todas as idades e condições econômicas o mesmo é requisitado. Se o esforço se iniciou através de uma profunda meditação pessoal do que realmente importa, iremos gradativamente descobrir a mais tenra satisfação. Se historicamente apenas serviu de compensação, inveja ou amargura haverá um quadro vazio, onde no máximo a paisagem é um inferno absoluto de uma espera agonizante e sem nenhum propósito. Seja o amor ou ternura, ambos apenas se instalam numa personalidade que desde a infância foi brindada com tais investimentos. É vital que a pessoa reflita o que faltou outrora para visualizar concretamente a dificuldade presente. Não se trata de condenação em hipótese alguma, mas da força do hábito de almejar evolução. O maior perigo psíquico de nossa era é se acostumar precocemente com o que há de pior ou danoso para o equilíbrio mental. A dor virou uma rotina tão comum quanto o trabalho ou qualquer outra atividade. Assim sendo, ansiedade é agonia de uma espera que secretamente sabemos que irá perdurar, pois nossos esforços não estão direcionados para algo prático, mas, apenas atendem a demanda de ilusões ou mentalizações de uma felicidade ou satisfação que jamais pode ser testada.  

 

 

* Trecho gentilmente cedido da tese do doutor em sociologia: IRINEU FRANCISCO BARRETO JÚNIOR.

 

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AGRADECIMENTOS : DOUTOR IRINEU FRANCISCO BARRETO JÚNIOR E SIMONE JORGE.

 

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